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Não importa se você não me ama e que isso se reflita em tudo o que você faz.

Só o que importa é que você nunca vai ser cem por cento de ninguém, porque uma parte sua vai sempre estar ausente, aqui.

E nós dois sabemos que, mesmo fugindo depois, você sempre volta pra mim.

Nós sabemos. Você sabe.

Para ler o Capítulo Um, clique aqui.

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O vento já soprava mais gelado. Percebeu isso quando abriu a janela para saber que tipo de roupa deveria pôr. O ar cálido deu um tom rosado às bochechas, embora a corrente aérea lhe despenteasse as madeixas.

Optou por uma longa saia, estampada em tons de marrom e dourado, ambos com o brilho já envelhecido pelo tempo. Seu suéter verde musgo ia muito bem com uma camiseta gola pólo que usava por baixo para evitar o desconforto das linhas de lã. Caía-lhe bem a pashmina em tons areia, jogada sobre os ombros displicentemente.

Olhou para a boneca que estava sobre seu criado mudo. Achava-se parecida com ela, embora a miniatura tivesse traços delicados e um tanto mais saudáveis, além de uma vestimenta femininamente elegante. No entanto, a pele era clara e contrastava placidamente com os cabelos artificiais, ora castanhos, ora dourados. Era sua preferida e a única que ficava à mostra em seu quarto; este sim, desleixado e sem brilho, como a imagem que tinha de si própria e que não se preocupava de maquiar para os tratos sociais.

Lá, em um canto, tinha uma caixa de ferramentas, todas sujas de óleo e jogadas dentro do recipiente sem obedecer qualquer padrão. Uma arara de roupas de inverno pairava logo acima. Ao lado da cama, sempre desarrumada com as cobertas da noite passada, jazia um criado mudo e, sobre este, seu retrato ao lado dos avós. As bonecas, impressas ao fundo, como parte da decoração, acrescentavam um ar de infância feminina e feliz ao retrato.

Fora uma garota normal até seus seis anos, enquanto ainda morava com os pais de seu pai. Isso aconteceu porque, naquela época, a única forma de sustento dos Turino, com a decadência do TrobulhosCar Championship, fora abrir uma mecânica para carros “artísticos” em uma vila das imediações. A melhor solução encontrada, naquele tempo, havia sido deixar a menina com os avós na cidade, aonde teria acesso à educação, amigos e cursos para a construção de novos Trobulhos. Sua mãe, no entanto, achou essa idéia prejudicial à cultura que a filha deveria seguir, tendo, então, convencido o marido e o filho mais novo a voltarem à cidade natal.

“Não há mais tempo para pensar em tais coisas”, disse consigo, beijou a boneca, feita por ela mesma e guardou-a no grande baú situado abaixo do umbral da janela. Era a primeira vez que a punha lá e sabia que, enquanto as coisas estivessem calmas como tinham andado, não deveria se atrever a tira-la de seu leito. Repousaria, a partir de agora, com outras tantas semelhantes, feitas, ora pelas mesmas mãos, ora pelas velhas, porém ágeis e dedicadas, mãos da avó paterna.

Desceu a escada estreita, apalpando os papéis de parede já descascados e tomando distância do corrimão frouxo. À mesa, para o café da manhã, estava apenas o irmão e o pai, degustando o pão que a velha tinha posto no forno para ficar crocante, com condimentos para deixa-lo mais saboroso e, diga-se de passagem, com sucesso.

-         A  mãe não vem?

-         Mmm… Saiu cedo. Não faço idéia de aonde está… Aquela velha… Nunca some assim, mas pelo menos posso agradecer, pelo lustro dos meus trobulhos, que sempre se preocupa em deixar as  coisas ajeitadas, quando resolve sair.

-         Obrigada, pai… Err… Rory… Azeite de oliva, sim?

Era assim o ambiente nas horas das refeições quando sua mãe não estava. Calmo, bem conversado, apesar de conter quase que estritamente as palavras necessárias, porém não despidas de delicadeza.

-         Estive olhando minhas bonecas hoje…

-         Você sabe o que sua mãe pensa disso. E não posso tirar a razão dela, também não me sinto bem com você falando dessas coisas, meu amor.

-         Eu estava dando uma última olhada. Pai… aaaaaaaah… você não entenderia… Isso faz parte de mim. Aquelas bonecas me viram crescer. Aquelas bonecas nasceram com a vovó, a sua mãe. Elas surgiram quando eu surgi. Não posso me desapegar assim.

-         Eu entendo sim, coração. Mas você bem sabe a dor de cabeça que essas coisinhas tão pequenas e delicadas deram a mim e à sua mãe quando quisemos ficar juntos. Bem sabe que abdiquei de toda a graça desses brinquedos quando saí da casa de seus avós e me casei. Não é justo que você queira suscitar tudo isso de novo. Olhe para os trobulhos. Olhe para os nossos carros… Eles são nossa vida hoje. É daqui que sai essa comida e com isso que pagamos a água que leva ela embora, depois de digerida. E, mais que qualquer outra criança, bem sabe também que miniaturas de gente não dirigem grandes carros de competição.

Acácia saiu da cozinha como sempre fazia. Cabeça pra fora, peito pra dentro. Só que, dessa vez, pensava na história que seu pai citara. Era aquele o motivo de um baú tão grande em seu quarto. As bonecas eram resquícios da cultura da família da avó: Competições de belas miniaturas de donzelas, príncipes e animais agitavam a cidade natal do pai e rivalizavam com o TrobulhosCar Championship, o lugar em que a mãe nascera, gerando competição de cunho econômico, turístico e fiscal entre os dois municípios.

O DollMakers Day, no entanto, havia massacrado miseravelmente o campeonato do outro burgo durante anos nas décadas passadas, deixando muitas das mais tradicionais famílias construtoras de trobulhos à míngua por um tempo considerável. Nascia, assim, uma rivalidade entre os moradores com suas respectivas famílias, além do sempre existente antagonismo entre carros e bonecas.

Resolveu que as lembranças também deveriam ser postas no baú. Fechou a janela e guardou lá fora o vento do outono.

Você estava
No meio de tantos que eu sabia que existia
Pelo simples fato de vê-los sempre
E de não serem nada.

Hoje, já não é lá que te vejo
Sequer estou contigo
Mas estás comigo aqui
Posso te ver através dessa minha janela
De msn.

Ideia de filme

Um filme sobre um detetive – Tommy Lee Jones- que se disfarça de mendigo para investigar a matança de indigentes. Agora, o quartel secreto a que ele pertence precisa arranjar uma solução rápida para salvar seu colega.

Através de queixas de desaparecimento de vários homens sem nome, eles chegam até a universidade de medicina mais conceituada da região e descobrem que, na verdade, o reitor é o mentor disso tudo e também o chefe do crime organizado da cidade.

Nome do filme: Anatomia Prática – O Medo Não Possui Identidade.

Ano de final par. Era ano de competir novamente, honrar a tradição da família que, durante muitos anos, dominou as premiações do evento. Ocorria, porém, que na década corrente, os Turino ainda não haviam ganho um campeonato sequer.

 

Ela não queria levantar da cama. Estava tão quentinho e confortável debaixo de seus lençóis com cheiro de ácaro que a expectativa de ver o sol brilhante lá fora, refletindo em sua pele branco talco e iluminando os sorrisos debilóides das pessoas de sua cidade não lhe atraía em nada.

 

Fosse como fosse, no entanto, a mãe, desagradável senhora de cabelos grisalhos desgrenhados, sob chantagens e ladainhas, sempre a tirava da cama. O preço, por isso, é claro, era apenas deixar de entoar suas palavras mal-humoradas nos 30 primeiros minutos da manhã da filha.

 

O dia começava como uma expectativa – ao menos era visto dessa forma por seus pais e seu irmão – a montagem de um novo TrobulhoCar que, dessa vez, deveria dar a vitória ao brasão de seus ascendentes, lavando a honra da família, já esquecida no limbo dos concorrentes de segundo escalão.

 

Os Turino não eram pobres, exatamente, ainda que no decorrer dos últimos anos para cá tivessem deixado de ostentar todo o brio e polidez que já detiveram em tempos passados. Pode-se até dizer que viviam com relativo conforto dentro daquilo que julgavam necessário: refeições diárias que remanesciam da bela e farta mesa dos finais de semana, uma casa (alugada) que detinha um certo luxo decadente, com seu bidê do qual já não jorrava água e uma banheira, usada apenas em certas ocasiões, como o retorno de uma viagem cansativa ou a comemoração de mais um ano de casamento dos patriarcas, Ariana e Liseu. O prêmio do campeonato desse ano, aliás, serviria para pagar as dívidas da família e ajuda-los na compra do imóvel em que já estavam instalados.

 

Liseu, o pai, era desse tipo de coroa sobre o qual o tempo parece passar mais devagar: As rugas não tinham nele a mesma rigidez com que se instalaram na esposa; seus cabelos pareciam estar todos sobre sua cabeça e o brilho que conservavam era como um troféu de cada fio sobre a inaptidão da gravidade em faze-los cair. Além de todos esses predicados, tinha o velho um sorriso simpaticíssimo, que não chegava a ser perfeito por conta de um pequeno diastema. Os dentes separados, porém, conferiam-no a certeza que todo ser humano tem um defeito. No caso de Liseu, os demais defeitos ficavam escondidos sobre sua posição de banana da casa, ofuscada pela personalidade de Ariana e a falha dentária servia como a personificação dessa índole oprimida, porém, amável.

 

Parecia que todas – aliás, quase todas – as qualidades do pai tinham passado ao primogênito. Roberto, Rory, era belo, seduzia pela aparência bem delineada mas não jactanciosa. Tinha formas bem aprazíveis e uma barriguinha do chope de final de semana, afinal, amigos e programações não lhe faltavam. Seus dentes pareciam estar todos absolutamente no lugar e um sorriso seu era capaz de delegar suspiros mesmo às moças menos sensíveis. Essa característica, inclusive, foi o que o fez conquistar sua mãe  muito mais que os próprios pais dela ou o marido. Era somente Rory que conseguia tocar-lhe o coração e faze-la amolecer, ainda que não fosse capaz de milagres, como faze-la mudar de opinião sobre a grande maioria das coisas.

 

Abster-me-ei de descrever a matriarca do clã, pois suas características estão bem presentes no pouco que contei dos outros membros. Passarei agora a falar da reprimida filha mais nova da família: Acácia era uma moça sem sal, branquela, olhos castanhos, do castanho mais comum que se vê por aí. Tinha uma farta cabeleira cor de café, com um brilho tão sumido quanto era o sorriso de seu rosto. Freqüentemente caminhava olhando pra baixo, os ombros erguidos e encolhidos a ponto de cada lado apontar para o pescoço. Não usava short, calça, vestido ou roupas curtas: Estava sempre com qualquer pano que lembrasse uma saia, de estampas caóticas e desbotadas. Por cima, lhe caía bem um suéter já surrado pelo tempo e que dificilmente tirava no inverno.

 

Era assim a moça: Passava despercebida na maioria das vezes e dela só se lembravam quando alguém pensava num filme de terror com uma figura moribunda ou para compara-la com algum amigo doente, a ponto de explicar a quem estivesse do outro lado da conversa o quão grave parecia ser o estado do infeliz.

 

Vivia à sombra do irmão. Não tinha inveja ou ciúme. Apenas sabia que jamais seria como ele. Já tentara, em outros tempos, odiá-lo, mas Rory era tão amável, engraçado e incapaz de se ser odiado que todas as tentativas de gostar menos dele falharam miseravelmente.

 

Os quatro pouco se encontravam em momentos que não fossem os das refeições  na maior parte do ano. A chegada do outono, entretanto, era bastante eficaz no que diz respeito a estreitar a convivência familiar: O TrobulhosCar Championship, como campeonato de alta incidência de populares famílias felizes tinha esse poder, de fazer com que os parentes mais diferentes entre si se juntassem em prol da mesma causa, o belo e rechonchudo prêmio do primeiro lugar.

 

Durante essa manhã, mesmo que Acácia estivesse relutante a princípio, a convivência entre eles fez-se agradável, deixando concreta a iminência de um novo trobulho, mais imponente que qualquer um que eles já tivessem produzido juntos. Os laços de sangue estavam mais firmes dessa vez. Seria presunção já esperar por um pódio?

 

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Essa é a primeira história que tento escrever. Dou à ela personagens, um plano de fundo e um motivo que faz as coisas acontecerem. Imagino pessoas e acontecimentos – não muito ortodoxos – para que tudo se encaixe ao final.

Espero que os poucos que lêem ~isso~ gostem.

Tentarei não demorar muito para postar os capítulos restantes, que sequer fiz ainda, e nem tornar a estória muito extensa.

Um texto chamado Jorge

Às vezes entro no meu blog e releio, um por um, cada texto que escrevi. Por alguns, sinto uma imensa vergonha, por outros, um grande sentimento de nostalgia ou, ainda, de orgulho.Tudo que eu tenho receio de conversar pessoalmente. Tudo o que eu queria era que alguém conseguisse me fazer falar sobre o que tem aqui dentro. Sobre os milhões de coisas que penso e estão por trás do que eu falo. Sobre todas as mensagens que eu tento mascarar por trás de mais de 50% das minhas conversas e sobre tudo o que faço pra chamar atenção, mesmo que sem querer.

O fato é que NADA do que tem aqui foi escrito sem motivo, sem uma história por trás. Todos têm uma história e um destinatário e, quando por acaso, esses textos alcançam seu alvo, despertando dúvidas e desconfianças, é como se mais de horas de conversas fossem tiradas a limpo. E disso, nem mesmo esse texto, tão metalinguístico, passará imune.

De qualquer forma, estou me dando ao trabalho de escrever isso como uma forma de dizer o que penso acerca da superficialidade dos relacionamentos que vejo por aí. Tantas pessoas desabafando sobre como seus amigos, namorados ou maridos as ferem, no entanto, com pessoas totalmente a par de sua relação. Há um medo enorme de mostrar à pessoa em questão os pensamentos, sentimentos ou qualquer “ento” equivalente. Prefere-se buscar conforto nas palavras de quem não entende o que de fato se passa e, justamente por isso, tenderá a concordar com o blá-blá-blá em questão ou, ao menos, terá uma ideia superficial o bastante para dizer ou sugerir algo que traria uma solução mais adequada ou definitiva.

Medo, só medo de saber o quão egoísta, egocêntrica e monstruosa é essa pessoa dentro de você. É por isso que você não quer se expor para quem gosta. É só isso mesmo. Mal sabe você que, por dentro, ela é igualmente fétida e degradada.

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Bom, esse texto precisava de um nome né… Se fosse de um título, ele se chamaria Barão Texto.

O azul parece desbotado

E tem estado assim por um bom tempo já. Desde que você se foi, eu não me senti mais igual. Mas sabe, essa ausência não tem me feito mal, à exceção da saudade que insiste em me causar. Sem você aqui, agora eu consigo percebo valor que as pessoas têm, e que eu não dou.

Eu queria tanto saber disso antes, que uma separação dessas é pra sempre e, que qualquer medida que eu tentasse tomar não me faria estar nem um pouco sequer mais perto de ti. E isso é ainda mais triste quando lembro que mesmo antes já estávamos longe demais.

Ainda assim, vou sentir falta do seu mau-humor, das suas reclamaões e da sua cara fechada. Da sua relutância em perceber que era quem estava perto de ti que te amava e de todas as provas de carinho que dava quando notava isso.

Vou sentir falta dos passeios e das risadas que, inconscientemente me fazia dar.

Vou sentir falta do abraço tímido que me deu tão poucas vezes.

Vou sentir falta de quando conseguia pensar em você sem que meus olhos lacrimejassem.

Vou sentir falta do seu mel que adoçava minha vida quando do regresso das viagens ao Rio Grande do Sul.

E eu sei que nunca te disse isso isso em tempo hábil mas, Vô, eu te amo.

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Nahir Fontoura Rodrigues, meu avô querido que não tornarei mais a ver. Agora só me restam as recordações e as histórias que meu pai, sorridente, conta para mim, a fim de matar a saudade.

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